quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Queimai vossa história tão mal contada!"


Estimados Iza, Cissa, Lu e Fabinho,

dessa vez com vocativo em homenagem a vocês! Meus únicos e tão cridos leitores! :-)

Vou contar pra vcs uma curiosidade, que a Roberta, amiga da Iza que virou minha tb, me contou.

Ela estava, metonimicamente, lendo uma historiadora brasileira, que estudou, dentre outras coisas (claro!), a nossa bandeira. Aquele papo de que o verde representa nossas matas, o amarelo, nosso ouro é balela!

A nossa bandeira foi desenhada pela Leopoldina, então mulher de D. Pedro, em conjunto com o Bonifácio (este último, salvo melhor juízo. Vou confirmar com a Robs. Eu e meus textos mutantes....) e a cor verde simbolizava a casa de Bragança, da qual fazia parte D. Pedro I, ao passo que a amarela simbolizava a família Habsburgo, da qual fazia parte D. Leopoldina. O losango é um símbolo ligado ao feminino, reforçando a associação à imperatriz. E o círculo azul, este sim, corresponde a uma imagem da esfera celeste, inclinada segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro às 12 horas siderais (8 horas e 30 minutos) do dia 15 de novembro de 1889.

Curiosidade "legal": a lei brasileira que regula os símbolos nacionais, Lei 5700, dispõe, em seu art.3º, §1°:

"As constelações que figuram na Bandeira Nacional correspondem ao aspecto do céu, na cidade do Rio de Janeiro, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889 (doze horas siderais) e devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste."

Esqueça tudo que te ensinaram na escola!

Beijos

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Meu crido João Ubaldo


Na dúvida de qual vocativo colocar para iniciar, ocorreu-me que o este blog deve mesmo é servir pra eu guardar meus textos preferidos. Acho pouco provável que haja seguidores, pelo que me abstenho de invocá-los.

Dessa vez trago aquele que tem sido meu companheiro nessas noites frias lisboetas: João Ubaldo Ribeiro!


Sob o Império da Lei - (03/08/2003)

Ainda meio inseguro quanto à compreensão do que pretendo escrever abaixo, taquei o título aí em cima e continuo inseguro, embora um pouco menos. O título parece com os dos filmes de caubói de antigamente, quando cidades do tempo do bangue-bangue nos Estados Unidos viviam entregues a bandidos que usavam tiros até para matar baratas (Glenn Ford uma vez matou uma, enquanto relaxava numa banheira, com o inseparável Colt 45* ao lado; assisti pessoalmente, embora não lembre o título do filme) e temo que o que vou dizer seja tido como uma exortação à transformação dos nossos grandes centros urbanos em cidades do faroeste.Mas claro que não farei uma exortação desse tipo e a razão é bastante simples. Em primeiro lugar, o que parece não ter importância alguma, sou contra a violência. Em segundo lugar, menos um pouco desimportante, estamos há muito tempo em falta de mocinhos, em todos os níveis de governo. E, agora sim, importante, já vivemos nessa situação há muito tempo. Somos cidades de faroeste, diferençadas apenas por detalhes, como carros e motocicletas, em vez de cavalos, e a ausência de coldres recheados à mostra. De resto, basta pensar e ver que, em cidades onde morre mais gente baleada do que em países em guerra, só podemos ser uma espécie de faroeste.Já nos acostumamos e por isso mal notamos. Quem nota e pode, vai morar em fortalezas ou complexos penitenciários, eufemisticamente rotulados de “condomínios”, mas na verdade com mais segurança do que a velha Alcatraz, embora inútil pois às vezes os próprios agentes dessa “segurança” estão por trás ou ao lado de sua violação. Quem pode, dá no pé e vai morar em algum país no qual não seja necessário rezar sempre que um filho vai à rua e um celular para cada um desses filhos não é considerado equipamento de segurança indispensável. Quem chega de fora fica assombrado em ver o número de grades pelas quais tudo é cercado, de edifícios a praças públicas, como se fosse normal o cidadão viver por trás de grades, enquanto o pau come solto lá fora.Nossas medidas pessoais de segurança já estão ficando tão arraigadas que achamos que elas fazem parte natural da vida. E encontramos sempre gente para dizer que nossas cidades são iguais a quaisquer outras grandes cidades do mundo, o que patentemente não é verdade. Acontece todo tipo de crime em muitas cidades grandes e civilizadas no exterior, mas há poucas como, por exemplo, Rio e São Paulo. Não é normal o sujeito ter de andar com documentos e, para não tê-los furtados, ser aconselhado pelas autoridades a portar cópias desses documentos. Não é normal ver a luz verde acesa para os pedestres e esperar que os carros parem mesmo, para ousar atravessar a rua. Não é normal o kit-assalto que muita gente já usa, o qual inclui desde as mencionadas cópias de documentos a bolsos nas cuecas, dinheirinho para o assaltante, relógio para o assaltante, companheiro para ficar do lado de fora enquanto a gente tremulamente vai a um caixa eletrônico, dinheiro maior entre a meia e o sapato e um terço rezado pelas mães, enquanto os filhos adolescentes vão a uma festinha.Chega dessa besteira de dizer que isso também é normal em Nova York, Paris ou Miami, porque não é. Tampouco é normal ter medo da polícia e de parar para a fiscalização, achando que se trata de uma blitz falsa. Blindar carros de família também não é normal. Botar janelas à prova de balas em apartamentos não é normal. Ter delegacias de polícia invadidas não é normal. Ler todo dia sobre alguém que morreu por bala perdida também não é normal. Ter feriados decretados por bandidos não é normal. Armar guaritas de estilo militar e cancelas à entrada de ruas públicas não é normal.Mas para nós ficou. E vai piorando. Nada impede, a não ser a organização de uma liderança suficientemente poderosa, que o Rio de Janeiro termine por ser inteiramente dominado por bandidos. Hoje, por exemplo, segundo me dizem, os policiais evitam usar suas identificações funcionais, porque quando chegar a normalíssima hora do assalto ao ônibus, à agência bancária ou mesmo à banca de revistas e os assaltantes descobrirem que um dos presentes é policial, o fuzilam na hora. E, também segundo me dizem, há policiais cujos salários os obrigam a morar em favelas perigosas que não podem deixar a farda lavada secando do lado de fora, para não descobrirem que ali mora um tira e o matarem, ou alguém da família dele.Para resolver isso, que cresce como um câncer em metástase desenfreada, os governos oferecem palavrório e legislação. Devemos ter as leis mais avançadas do mundo e vêm vindo mais. Por exemplo — e chego finalmente ao ponto mais polêmico — agora o plano é desarmar os cidadãos, proibindo terminantemente o porte de armas, mesmo que exclusivamente dentro de casa. Não tenho arma e sou visceralmente contra seu uso, mas não sou maluco. O cidadão que respeitar a lei não terá mais arma em casa, ou nem mesmo no sitiozinho, onde relaxar virou privilégio de quem pode contratar seguranças e ter cachorros ferozes por tudo quanto é canto. Mas o bandido? Ah, este estará de agora em diante perdido, porque o novo dispositivo legal cerceará sua ação criminosa. Verdade que terá certeza de que poderá entrar na casa de qualquer cidadão ordeiro, porque esse cidadão não contará com uma arma para defender-se. Mas o bandido poderá ser facilmente vencido. Basta que se guarde um exemplar da nova lei para mostrar ao assaltante: “Olhe aí, diz aqui que é proibido o porte de armas.” “Ah, desculpe”, dirá o assaltante, pedindo licença para retirar-se e saindo sem bater a porta. “Foi mal, eu não tinha sido informado.” E não duvido nada que, se o cidadão tiver em casa um revólver, mesmo que não dê um tiro no assaltante, seja preso e processado inafiançavelmente, enquanto o assaltante, réu primário, servirá pena de dois anos em regime semi-aberto. Tudo sob o império da lei.


* Acho que nós, brasileiros, poderíamos fazer uma adaptação do Slumdog Millionaire. Entitular o filme de 'Show do Milhão' e justificar a ciência do moleque sobre o inventor do revólver com a invenção de que ele leu essa crônica. Pelo menos o nível tosco de coesão do original restaria inalterado.

domingo, 24 de maio de 2009

O almocreve


Diletos amigos,

o que lhes trago agora foi o meu primeiro contato com o nosso Machado (mesmo achando que o pronome possessivo seja fruto da minha pretensão) e o que me aguçou a vontade de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas. Na minha irrelevante opinião, o livro compensa ser lido.

Dica dada, segue aqui a crônica que abrange de maneira crua a mesquinharia humana:

CAPÍTULO XXI / O ALMOCREVE


VAI ENTÃO, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dous corcovos, depois mais três, enfim mais um, que me sacudiu fora da sela, com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo, tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e pus-me de pé.


_Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.


E era verdade; se o jumento corre por ali fora, contundia-me deveras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro, lá se me ia a ciência em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-no no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele cuidava de consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida,-- essa era inestimável; mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está dito, dou-lhe as três moedas.


_Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da cavalgadura.

_Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim. . .

_Ora qual!

_Pois não é certo que ia morrendo?

_Se o jumento corre por aí fora, é possível; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.


Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir à luz do sol; não a viu o almocreve, porque eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juízo, que o "senhor doutor" podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.


_Olé! exclamei.

_Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça...


Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braças de distância, olhei para trás, o almocreve fazia-me grandes cortesias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício; acresce que a circunstâncias de estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituí-lo simples instrumento da Providência; e de um ou de outro modo, o mérito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão, chamei-me pródigo, lancei o cruzado à conta das minhas dissipações antigas; tive (por que não direi tudo?) tive remorsos.

sábado, 23 de maio de 2009

Bolero de Ravel


Caríssimos,

acabo de chegar de mais um dos meus programas "jovens idosos", que dessa foi foi uma magnífica apresentação de Bolero de Ravel pela Orquestra Sinfônica Portuguesa.

A companhia da Verônika fez-me lembrar dos tempos do Sagrado, quando tivemos de ler o "Sentimento do Mundo" para o vestibular, com direito aos ensinamentos da nossa querida professora Glória (aquela que eu fazia questão de transportar-lhe os materiais de uma sala pra outra e dizer que aquele era meu "momento de Glória").


Imbuída nesse espírito poético-musical-saudosista, trago à baila um poema do livro:

Bolero de Ravel

A alma ativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto
esquiva ondulação evanescente
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador..


1ª Nota extraída da net (somente para aqueles que pertencem ao meu grupo, dos que lêem Drummond e ficam com aquela cara "era pra entender?". Se vc não é desses, avance uma nota.):

A música “Bolero de Ravel”, foi criada instintivamente pelo maestro Maurice Ravel (1875-1937), que queria fornecer um exercício prático que envolvesse todos os nypes musicais e uma orquestra (cordas, percussão, metais e sopro). Trata-se de uma canção repetitiva, que apenas retorna ao seu tema a todo instante, e a cada repetição, intensifica um pouco mais a sua força.

Drummond trabalha as características da canção no seu poema, principalmente ao citar: “infinita, infinitamente”, “ espiral de desejo” e “círculo ardente”.

Seu valor intrínseco está na capacidade contrastiva que o poeta estabelece entre a alma ativamente aplicada ao desejo e à vida e o obstáculo, a distração ou o barulho que prendem ou abafam a entrega profunda à vivência a ser protagonizada pelo homem vivo. A dinâmica da vida é destacada com leveza e verdade.


2ª Nota extraída da net:

A praia fluvial do Jacaré ou praia do Jacaré/PB, é um pequena área turística de Cabedelo. Nessa área estão concentrados bares, restaurantes, hotéis, casas de artesanato, casas de pescadores, etc.

A praia é conhecida graças ao seu pôr-do-sol. É nesse momento que Jurandy do Sax (atual recordista mundial de pessoa que mais tocou o Bolero de Ravel) entra em um barco e toca saxofone até o sol se pôr.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

1ª Tirinha


Bom pessoal, passadas as apresentações, vamos à verdadeira intenção desse blog, que é ser o meio de comunicação do qual me valerei para compartilhar algumas de minhas boas leituras.

Começo por trazer um trecho do livro do Gabriel García Márquez, Memória de Minhas Putas Tristes:

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."

Quanto à página, deixei o papel em que tinha anotado no Brasil. Caso se interessem, podem pedir minha mãe, está na gaveta da direita da minha escrivaninha. (hahah)

Espero que gostem e até a proxima!

Ana à la JK


É isso mesmo, tenho vivido uma vida à la JK: 100 meses em 10 (com um certo exagero, mas só pra não perder a proporção decimal).

Breve relato cronológico dos fatos:
Nov/08 - Largo tudo em BH pra aventurar por outros ares;
Jan/09 - Coimbra e eu não nos entendemos o bastante para habitarmos o mesmo lugar. Pelo fato de eu gozar de mobilidade, saí eu. Lisboa me deu abrigo.
Fev/09 - As coisas melhoram com o novo emprego. Até então, pensava que as palavras estagiária e realização se excluíam. Vejo que não.

Sei que, desde novembro, eu sou minha companhia inseparável e já não me aguento mais. São dois "eus" (razão e emoção) a conflitarem todo o tempo.

Identifico-me cada hora com um lugar. Já decidi voltar e ficar algumas cansáveis vezes. Pelo menos já sei uma coisa: minha razão tem seu jeito europeu de ser, mas minha emoção é brasileira e pronto! Gosto mesmo é de samba, suor e cerveja pra curtir a vida. Mas pra um bom papo cabeça, não dispenso uma saborosa destilação de uvas. Por isso tantas dúvidas em relação a voltar ou ficar, cada hora uma fala mais alto.

De toda forma, a última decisão, que já perdura por algum tempo (é tipo a pega do garrote e o boxe: só se tem o resultado após uma estabilidade), é a de voltar. Creio que meros passeios por esse Velho Mundo me farão satisfeita, mas por ora quero mesmo é morar no Brasil.

Até onde podem ir minhas pretensas conclusões, digo que somos o pior e o melhor povo do mundo. Somos aproveitadores, corruptos, mas solícitos como poucos.

E sinto falta dessa solicitude...

Até breve!