quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Amor de Perdição

Caros,

natal sem excessos foi propício para terminar meu primeiro livro do português Castelo Branco. ("Já agora" conto que ia escrevendo tuga em vez de português, mas achei por bem não adjetivá-lo desta forma.)

O livro que sucedeu é Gomorra, do italiano Roberto Saviano, e prometo tentar achar um bom trecho para lhes trazer, mesmo sendo da opinião de que todo o livro deve ser lido.

Espero que gostem do trecho da vez.

Com meus melhores cumprimentos,

Ana Lusa


Capítulo XIX

A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.


Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coias; mas, na novela custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.

Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatrozes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.

A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!?

A verdade do coração humano! Se o coração humano tem enfilamentos de ferro que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?

Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é, feia e repugnante.
A desgraça afervora ou aquebranta o amor?

Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Fatos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos e não explica as funções óticas do aparelho visual.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pela diferença

Sumi. Questionando as incontáveis reclamações de falta de tempo que escuto e digo, justifico minha ausência apenas com um "faltou-me sobretudo inspiração".

Como motivo para redenção, musico-vos.

O Quereres

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mais história de escravidão

Caríssimos,

Fiel ao fim do blog, trago pra vocês trechos excertos do livro O julgamento de Sócrates, do norte americano I.F. Stone.

Infiel às normas da ABNT, informo que o primeiro trecho encontra-se nas páginas 67-68 e o segundo, nas páginas 200-201, e a editora é a Companhia das Letras.


Outro sofista, Alcídamas, discípulo de Górgias, parece ter sido o primeiro filósofo a questionar a instituição da escravatura. Temos conhecimento desse fato graças a uma nota marginal feita por um comentarista anónimo da Antiguidade com referência a uma curiosa lacuna no manuscrito da Retórica de Aristóteles. Ao discutir a ideia de uma lei natural universal, Aristóteles afirma: “Alcídamas também menciona esse preceito em sua obra Messeníaco […]”. O resto dessa frase intrigante foi riscada dos manuscritos, dando quase a impressão de que o escriba temia que essa ideia perigosa e incendiária pudesse provocar uma rebelião de escravos, E é possível que tenha sido isso mesmo. Não temos como saber exatamente o que Aristóteles citou, porém uma nota marginal anônima que aparece nesse trecho (e que foi traduzida, numa nota de rodapé, na edição Loeb, por J. H. Freese) atribuiu a Alcídamas o trecho: “Deus deixou livres todos os homens; a Natureza não fez ninguém escravo”. Não sei se essa citação foi alguma vez utilizada pela literatura do movimento abolicionista norte-americano. (A julgar pelo nome, Messeníaco, a obra perdida de Alcídamas talvez dissesse respeito à revolta dos messênios contra os espartanos, que os haviam escravizado.)
Antes que nos empolguemos demais com esses nobres sentimentos, devo acrescentar uma melancólica nota final em relação a esse ponto. Uma das constatações mais desanimadoras do estudioso da Antiguidade é o fato de que os estóicos, são Paulo e os juristas romanos afirmavam todos a igualdade dos homens – fossem estes livres ou escravos – e ao mesmo tempo aceitavam sem nenhum problema a instituição da escravatura. O mesmo se deu com a maioria dos fundadores da nação norte-americana – se bem que não com todos.
Mas o sofista Alcídamas ao menos transcendeu os preconceitos de sua época (tal como Eurípedes, conforme veremos) e abriu os olhos dos homens para uma moralidade mais elevada, Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles aceitavam a visão convencional de sua época a respeito da escravidão e, sob esse aspecto, sua atitude emocional e intelectual era inferior à de um sofista como Alcídamas.
Sócrates e Platão jamais questionaram a escravidão, e Aristóteles a julgava “natural”, Todos os três, porém, viviam numa sociedade em que havia escravos que tinham perdido a liberdade por causa dos azares da guerra ou da pirataria. Era a falta de sorte, e não a inferioridade natural, que os levara aos mercados de escravos da Antiguidade. Até mesmo os que nasciam escravos, como ocorria em Roma, como frequência elevavam-se muito acima da sua condição de origem. Homero era mais sábio do que os filósofos. Afirmou ele que quando um homem é capturado no campo de batalha e escravizado, ele se transforma em “um homem pela metade”. Tendo perdido a liberdade, não se importa com mais nada; doravante tudo que se produzir pertencerá a outro. Não fora sua natureza que o fizera escravo, mas sim a escravização que modifica sua “natureza”. Moral da história. Até mesmo os maiores filósofos às vezes compartilham da cegueira de sua época, sempre que uma visão mais arguta possa ameaçar o direito de propriedade.


Como antídoto a essa história de fadas política, voltemos às sóbrias páginas da Constituição de Atenas, de Aristóteles. Nelas ficamos sabendo o motivo das “sedições” – para usar o termo pejorativo de Crítias – que Sólon encontrou ao voltar do Egito para Atenas. Os pobres da Ática tinham praticamente se transformado em escravos dos ricos através de um sistema no qual a legislação dava aos credores o direito de impor a servidão aos devedores incapazes de saldar suas dívidas, bem como a suas famílias. Segundo Aristóteles, Sólon, para restaurar a estabilidade social e estabelecer um mínimo de justiça, extinguiu esse sistema de servidão. Se Sólon tivesse gostado do que vira no Egito, esse sistema seria um meio oportuno de instituir na Ática a escravidão por
dívidas que havia entre os egípcios. Crítias morreu na tentativa de pôr em prática o ideal platónico.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Baudelaire


Da parede da cozinha do São Sebastião, nas letras sôfregas do Zé Chemin, pra vocês:

EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.


Baudelaire

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Link


Olás!!!!

Bom, os bons ventos sopraram minha vida nestes últimos 3 dias. Após um sábado de prova, um domingo de chuva (apesar da vitória do Brasil sobre os EUA) meio triste, com a chuva fora de época. Verão europeu não tem muito espaço pra chuva. Mas... that's ok!

Segunda comecei meu estágio no restaurante nepalês. Foi muito mais legal que imaginei. Fiquei fascinada com a cozinha, com o tanto que os napaleses foram receptivos e, claro, feliz por demais em aprender os segredos da cozinha tão saborosa! Vou voltar uma moça cheia de prendas...

Hoje é dia de concerto no Largo de São Carlos, orquestra de bandolins + um tenor e amanhã tem aniversário e fds praia e... ê laiá!

Ah, boa notícia também é a data de retorno para a pátria: 23-09 e na ilustre companhia, mais coincidente que qualquer outra coisa, da Roberta.

Descobri mais uma faceta da minha ignorância: Pina Bausch. Quem? É, meu povo, o mundo lamentando o óbito da coreógrafa e eu nem nunquinha tinha ouvido falar... (emoticon de expressão face corada)

Bom, mas pelo menos o Michael Jackson eu sabia quem era... Vixe, piorou, né? Mas já tá escrito mesmo, fazer o quê?

Daí fui saber e achei no jornal ípsilon, que segue o link pra quem quiser umas boas doses de notícias legais: http://ipsilon.publico.pt/

A intenção era mandar o link, mas me estendi por demais.... eu sei. Mas também, quem ler até o final fica com crédito de me cobrar um jantarzinho nepalês! ;-)

Beijinhos felizes!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

É pá (sofrer)


E, pra compensar a ausência, hj vai ser dia de dobradinha! Vamos a mais uma dose músico-poética.


Essa é daquelas que eu tenho certeza que vou chorar quando voltar "pa" o Brasil...


Lembrar com carinho de todos aqueles que fizeram diferença, dos cafés, dos jantares, do Adamastor, do Bairro, do Castelo, das surpresas, das despedidas envoltas em lágrimas, da vida se mostrando efêmera (como nunca dantes), do dilema Têjo x Téjo, dos vinhos, da evolução, dos momentos de instrospecção, da herança do sangue lusitano da boa dose de lirismo que vim resgatar, do Pedro dizendo que em Portugal há uma produção belíssima de poesia pela características dos portugueses, do carinho da Iza por essa terra...


A música, entitulada "Fado Tropical", é uma das composições do Chico e do Ruy Guerra, que terão explanações nos próximos capítulos. Caso se interessem, não percam!


Fado Tropical


Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

"Queimai vossa história tão mal contada!" - parte II


Agora com uma gama maior de leitores, deixo de invocá-los pelos nomes, mas com não menos carinho.


Nem sei se causou estranheza o sumiço, nem mesmo se foi notado, mas cumpre-me esclarecer que se deveu às provas e à alta dose etílica dos últimos dias... Não só de pão vive a mulher!


Mais uma crônica que eu adorei. Ela leva o título de um livro dele (que ainda não li), mas já ouvi dizer ser muito bom.


E tome mais João Ubaldo!



Viva o povo brasileiro


Para certos escritores, como infelizmente eu mesmo, assunto às vezes é uma praga invencível. Eu não queria falar novamente no que vou falar, pelo menos agora. E pretendia escapar ao efeito colateral, que é o de pegar mais uma vez no pé do presidente da República. Não vou negar que me tenho visto na obrigação de pegar no pé dele e, quando acho que devo, pego mesmo. Certamente ele não gosta, mas é o presidente, deve explicações aos governados e eu sou um governado na mesma situação geral que milhões de outros. Ele pode nem escutar nem ler, mas a gente tem que falar e escrever o que pensa do que ele faz. Presidente sendo, tudo o que ele faz é do interesse público.

O que ele disse recentemente na África é natural para a maior parte dos brasileiros, porque foram “verdades” estabelecidas sem discussão há décadas e agora influenciadas pela globalização e pela nossa permanente colonização cultural. O que vou argumentar é contra essas “verdades” — como os índios serem os primeiros brasileiros e a África ser um continente homogêneo, possuidor até mesmo de uma única cultura, a famosa “cultura africana” — sobre as quais escrevi outro dia, mas admito que vai sobrar para ele, a começar pelo lugar escolhido, de onde pouquíssimos escravos vieram para o Brasil.

Expandindo um pouco o que já publiquei aqui, vamos lembrar que, mais ou menos do mesmo jeito que entre os índios brasileiros antes do descobrimento, não havia, na África, noção de África comparável nem de longe à de hoje e muito menos de “negritude”. Milhões de negros, antes do contato com brancos, nasceram e morreram achando que a Humanidade era toda constituída de negros como eles, pois eles só conheciam negros. E a Humanidade, branca ou negra, não é uma espécie lá muito meritória. Os negros, como os brancos, amarelos ou o que lá fosse, praticavam a escravidão entre si, porque eram muitos povos, todos diferentes e, naturalmente, se vendo como diferentes. Faziam a mesma coisa, praticamente desde que o mundo é mundo. Guerreavam e quem ganhava costumava escravizar quem perdia. Isso já acontecia na África anterior à chegada européia e não podia ser diferente, pois a escravidão é uma iniqüidade antiga e tão sedimentada que até hoje não acabou.

Aquela casa de comércio de escravos onde o presidente pediu desculpas era, digamos, tripulada por negros. Eram negros comerciantes de outros negros, aos quais não se consideravam iguais de forma alguma, mas antagônicos e inimigos ferozes. Segundo me ensinou o mais erudito estudioso do assunto que conheço, o poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva, um povo denominado jalofo, naquela região, costumava vencer e escravizar os povos tacrus, fulas ou sereres, seus vizinhos, negros como eles, é óbvio. Esse tipo de coisa acontecia em todo o mercado mundial de escravos negros. Nos séculos XV e XVI, se não me engano, o reino do Congo, onde mais ou menos fica hoje Angola, subjugava seus vizinhos, escravizava-os e os vendia aos portugueses, que usaram durante algum tempo o nome calhorda de peças-da-índia para designar lotes de escravos. Ou seja, os portugueses não compravam homens livres, compravam peças-da-índia, “mercadoria pronta”, gente já escravizada, que, se não fosse exportada, continuaria na condição de escrava em sua própria terra.

Tudo isso é de uma monstruosidade sem medida, mas como hediondo crime de ser humano contra ser humano, não de raça contra raça. A escravidão é uma vergonha e uma indescritível violência, mas somos, como também diz o Alberto, todos descendentes de escravos, de senhores ou de ambos, pois houve (e ainda há) escravidão em todos os continentes. O presidente, que, por sinal, falou como branco, pediu desculpas, referindo-se a homens livres que de repente eram arrancados de sua terra para serem escravizados, mas não se tratava mais de homens livres, já eram de fato escravos. E também deixou de lado o que muita gente deixa, ao pensar no assunto: as nações ou etnias negras que vendiam escravos também devem desculpas aos descendentes destes. Se nós devemos ter remorso e vergonha da escravidão, também eles devem ter remorso de haverem sido cúmplices e participantes ativos da escravidão, humilhação e infindável sofrimento de seus semelhantes. Semelhantes homens, friso eu, não semelhantes negros. É abominação suprema escravizar qualquer pessoa. Aquilo que trouxe lágrimas aos olhos da senadora Benedita devia trazer ainda mais, se ela lembrasse que quem amontoava gente ali como gado não eram brancos, mas negros, que, aliás, não viam nenhum mal no que faziam.

Acho importante recordar isso porque estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também verdadeiros primeiros brasileiros e que trouxeram com eles tão importante parte da riqueza cultural, que hoje nos ornamenta e singulariza. Nós conseguimos ser e agora vivemos fazendo força para deixar de ser, num gigantesco passo atrás, o único país onde de fato a Humanidade se misturou e se mistura, onde ninguém permanece “de fora” e até culturas resistentes à integração, como a japonesa, se deixaram assimilar e os oriundos de qualquer parte não vivem aqui enquistados, como no resto do mundo. A verdadeira fraternidade não pode restringir-se àquela entre negros e negros ou brancos e brancos, ou quaisquer outras categorias limitadas. A verdadeira fraternidade há de medrar entre todos os homens e a nossa nação não é branca, nem negra, nem índia, é brasileira. Sei que há quem não goste, mas brasileiros somos, brasileiros sempre seremos e brasileiros morreremos, na nossa esplendorosa mestiçagem que, para mim, aos olhos de Deus, é o mais belo testemunho do grande milagre da Criação, que não foi raça nenhuma, foi o homem e sua consciência.

24/04/2005

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Queimai vossa história tão mal contada!"


Estimados Iza, Cissa, Lu e Fabinho,

dessa vez com vocativo em homenagem a vocês! Meus únicos e tão cridos leitores! :-)

Vou contar pra vcs uma curiosidade, que a Roberta, amiga da Iza que virou minha tb, me contou.

Ela estava, metonimicamente, lendo uma historiadora brasileira, que estudou, dentre outras coisas (claro!), a nossa bandeira. Aquele papo de que o verde representa nossas matas, o amarelo, nosso ouro é balela!

A nossa bandeira foi desenhada pela Leopoldina, então mulher de D. Pedro, em conjunto com o Bonifácio (este último, salvo melhor juízo. Vou confirmar com a Robs. Eu e meus textos mutantes....) e a cor verde simbolizava a casa de Bragança, da qual fazia parte D. Pedro I, ao passo que a amarela simbolizava a família Habsburgo, da qual fazia parte D. Leopoldina. O losango é um símbolo ligado ao feminino, reforçando a associação à imperatriz. E o círculo azul, este sim, corresponde a uma imagem da esfera celeste, inclinada segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro às 12 horas siderais (8 horas e 30 minutos) do dia 15 de novembro de 1889.

Curiosidade "legal": a lei brasileira que regula os símbolos nacionais, Lei 5700, dispõe, em seu art.3º, §1°:

"As constelações que figuram na Bandeira Nacional correspondem ao aspecto do céu, na cidade do Rio de Janeiro, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889 (doze horas siderais) e devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste."

Esqueça tudo que te ensinaram na escola!

Beijos

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Meu crido João Ubaldo


Na dúvida de qual vocativo colocar para iniciar, ocorreu-me que o este blog deve mesmo é servir pra eu guardar meus textos preferidos. Acho pouco provável que haja seguidores, pelo que me abstenho de invocá-los.

Dessa vez trago aquele que tem sido meu companheiro nessas noites frias lisboetas: João Ubaldo Ribeiro!


Sob o Império da Lei - (03/08/2003)

Ainda meio inseguro quanto à compreensão do que pretendo escrever abaixo, taquei o título aí em cima e continuo inseguro, embora um pouco menos. O título parece com os dos filmes de caubói de antigamente, quando cidades do tempo do bangue-bangue nos Estados Unidos viviam entregues a bandidos que usavam tiros até para matar baratas (Glenn Ford uma vez matou uma, enquanto relaxava numa banheira, com o inseparável Colt 45* ao lado; assisti pessoalmente, embora não lembre o título do filme) e temo que o que vou dizer seja tido como uma exortação à transformação dos nossos grandes centros urbanos em cidades do faroeste.Mas claro que não farei uma exortação desse tipo e a razão é bastante simples. Em primeiro lugar, o que parece não ter importância alguma, sou contra a violência. Em segundo lugar, menos um pouco desimportante, estamos há muito tempo em falta de mocinhos, em todos os níveis de governo. E, agora sim, importante, já vivemos nessa situação há muito tempo. Somos cidades de faroeste, diferençadas apenas por detalhes, como carros e motocicletas, em vez de cavalos, e a ausência de coldres recheados à mostra. De resto, basta pensar e ver que, em cidades onde morre mais gente baleada do que em países em guerra, só podemos ser uma espécie de faroeste.Já nos acostumamos e por isso mal notamos. Quem nota e pode, vai morar em fortalezas ou complexos penitenciários, eufemisticamente rotulados de “condomínios”, mas na verdade com mais segurança do que a velha Alcatraz, embora inútil pois às vezes os próprios agentes dessa “segurança” estão por trás ou ao lado de sua violação. Quem pode, dá no pé e vai morar em algum país no qual não seja necessário rezar sempre que um filho vai à rua e um celular para cada um desses filhos não é considerado equipamento de segurança indispensável. Quem chega de fora fica assombrado em ver o número de grades pelas quais tudo é cercado, de edifícios a praças públicas, como se fosse normal o cidadão viver por trás de grades, enquanto o pau come solto lá fora.Nossas medidas pessoais de segurança já estão ficando tão arraigadas que achamos que elas fazem parte natural da vida. E encontramos sempre gente para dizer que nossas cidades são iguais a quaisquer outras grandes cidades do mundo, o que patentemente não é verdade. Acontece todo tipo de crime em muitas cidades grandes e civilizadas no exterior, mas há poucas como, por exemplo, Rio e São Paulo. Não é normal o sujeito ter de andar com documentos e, para não tê-los furtados, ser aconselhado pelas autoridades a portar cópias desses documentos. Não é normal ver a luz verde acesa para os pedestres e esperar que os carros parem mesmo, para ousar atravessar a rua. Não é normal o kit-assalto que muita gente já usa, o qual inclui desde as mencionadas cópias de documentos a bolsos nas cuecas, dinheirinho para o assaltante, relógio para o assaltante, companheiro para ficar do lado de fora enquanto a gente tremulamente vai a um caixa eletrônico, dinheiro maior entre a meia e o sapato e um terço rezado pelas mães, enquanto os filhos adolescentes vão a uma festinha.Chega dessa besteira de dizer que isso também é normal em Nova York, Paris ou Miami, porque não é. Tampouco é normal ter medo da polícia e de parar para a fiscalização, achando que se trata de uma blitz falsa. Blindar carros de família também não é normal. Botar janelas à prova de balas em apartamentos não é normal. Ter delegacias de polícia invadidas não é normal. Ler todo dia sobre alguém que morreu por bala perdida também não é normal. Ter feriados decretados por bandidos não é normal. Armar guaritas de estilo militar e cancelas à entrada de ruas públicas não é normal.Mas para nós ficou. E vai piorando. Nada impede, a não ser a organização de uma liderança suficientemente poderosa, que o Rio de Janeiro termine por ser inteiramente dominado por bandidos. Hoje, por exemplo, segundo me dizem, os policiais evitam usar suas identificações funcionais, porque quando chegar a normalíssima hora do assalto ao ônibus, à agência bancária ou mesmo à banca de revistas e os assaltantes descobrirem que um dos presentes é policial, o fuzilam na hora. E, também segundo me dizem, há policiais cujos salários os obrigam a morar em favelas perigosas que não podem deixar a farda lavada secando do lado de fora, para não descobrirem que ali mora um tira e o matarem, ou alguém da família dele.Para resolver isso, que cresce como um câncer em metástase desenfreada, os governos oferecem palavrório e legislação. Devemos ter as leis mais avançadas do mundo e vêm vindo mais. Por exemplo — e chego finalmente ao ponto mais polêmico — agora o plano é desarmar os cidadãos, proibindo terminantemente o porte de armas, mesmo que exclusivamente dentro de casa. Não tenho arma e sou visceralmente contra seu uso, mas não sou maluco. O cidadão que respeitar a lei não terá mais arma em casa, ou nem mesmo no sitiozinho, onde relaxar virou privilégio de quem pode contratar seguranças e ter cachorros ferozes por tudo quanto é canto. Mas o bandido? Ah, este estará de agora em diante perdido, porque o novo dispositivo legal cerceará sua ação criminosa. Verdade que terá certeza de que poderá entrar na casa de qualquer cidadão ordeiro, porque esse cidadão não contará com uma arma para defender-se. Mas o bandido poderá ser facilmente vencido. Basta que se guarde um exemplar da nova lei para mostrar ao assaltante: “Olhe aí, diz aqui que é proibido o porte de armas.” “Ah, desculpe”, dirá o assaltante, pedindo licença para retirar-se e saindo sem bater a porta. “Foi mal, eu não tinha sido informado.” E não duvido nada que, se o cidadão tiver em casa um revólver, mesmo que não dê um tiro no assaltante, seja preso e processado inafiançavelmente, enquanto o assaltante, réu primário, servirá pena de dois anos em regime semi-aberto. Tudo sob o império da lei.


* Acho que nós, brasileiros, poderíamos fazer uma adaptação do Slumdog Millionaire. Entitular o filme de 'Show do Milhão' e justificar a ciência do moleque sobre o inventor do revólver com a invenção de que ele leu essa crônica. Pelo menos o nível tosco de coesão do original restaria inalterado.

domingo, 24 de maio de 2009

O almocreve


Diletos amigos,

o que lhes trago agora foi o meu primeiro contato com o nosso Machado (mesmo achando que o pronome possessivo seja fruto da minha pretensão) e o que me aguçou a vontade de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas. Na minha irrelevante opinião, o livro compensa ser lido.

Dica dada, segue aqui a crônica que abrange de maneira crua a mesquinharia humana:

CAPÍTULO XXI / O ALMOCREVE


VAI ENTÃO, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dous corcovos, depois mais três, enfim mais um, que me sacudiu fora da sela, com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo, tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e pus-me de pé.


_Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.


E era verdade; se o jumento corre por ali fora, contundia-me deveras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro, lá se me ia a ciência em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-no no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele cuidava de consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida,-- essa era inestimável; mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está dito, dou-lhe as três moedas.


_Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da cavalgadura.

_Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim. . .

_Ora qual!

_Pois não é certo que ia morrendo?

_Se o jumento corre por aí fora, é possível; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.


Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir à luz do sol; não a viu o almocreve, porque eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juízo, que o "senhor doutor" podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.


_Olé! exclamei.

_Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça...


Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braças de distância, olhei para trás, o almocreve fazia-me grandes cortesias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício; acresce que a circunstâncias de estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituí-lo simples instrumento da Providência; e de um ou de outro modo, o mérito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão, chamei-me pródigo, lancei o cruzado à conta das minhas dissipações antigas; tive (por que não direi tudo?) tive remorsos.

sábado, 23 de maio de 2009

Bolero de Ravel


Caríssimos,

acabo de chegar de mais um dos meus programas "jovens idosos", que dessa foi foi uma magnífica apresentação de Bolero de Ravel pela Orquestra Sinfônica Portuguesa.

A companhia da Verônika fez-me lembrar dos tempos do Sagrado, quando tivemos de ler o "Sentimento do Mundo" para o vestibular, com direito aos ensinamentos da nossa querida professora Glória (aquela que eu fazia questão de transportar-lhe os materiais de uma sala pra outra e dizer que aquele era meu "momento de Glória").


Imbuída nesse espírito poético-musical-saudosista, trago à baila um poema do livro:

Bolero de Ravel

A alma ativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto
esquiva ondulação evanescente
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador..


1ª Nota extraída da net (somente para aqueles que pertencem ao meu grupo, dos que lêem Drummond e ficam com aquela cara "era pra entender?". Se vc não é desses, avance uma nota.):

A música “Bolero de Ravel”, foi criada instintivamente pelo maestro Maurice Ravel (1875-1937), que queria fornecer um exercício prático que envolvesse todos os nypes musicais e uma orquestra (cordas, percussão, metais e sopro). Trata-se de uma canção repetitiva, que apenas retorna ao seu tema a todo instante, e a cada repetição, intensifica um pouco mais a sua força.

Drummond trabalha as características da canção no seu poema, principalmente ao citar: “infinita, infinitamente”, “ espiral de desejo” e “círculo ardente”.

Seu valor intrínseco está na capacidade contrastiva que o poeta estabelece entre a alma ativamente aplicada ao desejo e à vida e o obstáculo, a distração ou o barulho que prendem ou abafam a entrega profunda à vivência a ser protagonizada pelo homem vivo. A dinâmica da vida é destacada com leveza e verdade.


2ª Nota extraída da net:

A praia fluvial do Jacaré ou praia do Jacaré/PB, é um pequena área turística de Cabedelo. Nessa área estão concentrados bares, restaurantes, hotéis, casas de artesanato, casas de pescadores, etc.

A praia é conhecida graças ao seu pôr-do-sol. É nesse momento que Jurandy do Sax (atual recordista mundial de pessoa que mais tocou o Bolero de Ravel) entra em um barco e toca saxofone até o sol se pôr.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

1ª Tirinha


Bom pessoal, passadas as apresentações, vamos à verdadeira intenção desse blog, que é ser o meio de comunicação do qual me valerei para compartilhar algumas de minhas boas leituras.

Começo por trazer um trecho do livro do Gabriel García Márquez, Memória de Minhas Putas Tristes:

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."

Quanto à página, deixei o papel em que tinha anotado no Brasil. Caso se interessem, podem pedir minha mãe, está na gaveta da direita da minha escrivaninha. (hahah)

Espero que gostem e até a proxima!

Ana à la JK


É isso mesmo, tenho vivido uma vida à la JK: 100 meses em 10 (com um certo exagero, mas só pra não perder a proporção decimal).

Breve relato cronológico dos fatos:
Nov/08 - Largo tudo em BH pra aventurar por outros ares;
Jan/09 - Coimbra e eu não nos entendemos o bastante para habitarmos o mesmo lugar. Pelo fato de eu gozar de mobilidade, saí eu. Lisboa me deu abrigo.
Fev/09 - As coisas melhoram com o novo emprego. Até então, pensava que as palavras estagiária e realização se excluíam. Vejo que não.

Sei que, desde novembro, eu sou minha companhia inseparável e já não me aguento mais. São dois "eus" (razão e emoção) a conflitarem todo o tempo.

Identifico-me cada hora com um lugar. Já decidi voltar e ficar algumas cansáveis vezes. Pelo menos já sei uma coisa: minha razão tem seu jeito europeu de ser, mas minha emoção é brasileira e pronto! Gosto mesmo é de samba, suor e cerveja pra curtir a vida. Mas pra um bom papo cabeça, não dispenso uma saborosa destilação de uvas. Por isso tantas dúvidas em relação a voltar ou ficar, cada hora uma fala mais alto.

De toda forma, a última decisão, que já perdura por algum tempo (é tipo a pega do garrote e o boxe: só se tem o resultado após uma estabilidade), é a de voltar. Creio que meros passeios por esse Velho Mundo me farão satisfeita, mas por ora quero mesmo é morar no Brasil.

Até onde podem ir minhas pretensas conclusões, digo que somos o pior e o melhor povo do mundo. Somos aproveitadores, corruptos, mas solícitos como poucos.

E sinto falta dessa solicitude...

Até breve!