quinta-feira, 18 de junho de 2009

É pá (sofrer)


E, pra compensar a ausência, hj vai ser dia de dobradinha! Vamos a mais uma dose músico-poética.


Essa é daquelas que eu tenho certeza que vou chorar quando voltar "pa" o Brasil...


Lembrar com carinho de todos aqueles que fizeram diferença, dos cafés, dos jantares, do Adamastor, do Bairro, do Castelo, das surpresas, das despedidas envoltas em lágrimas, da vida se mostrando efêmera (como nunca dantes), do dilema Têjo x Téjo, dos vinhos, da evolução, dos momentos de instrospecção, da herança do sangue lusitano da boa dose de lirismo que vim resgatar, do Pedro dizendo que em Portugal há uma produção belíssima de poesia pela características dos portugueses, do carinho da Iza por essa terra...


A música, entitulada "Fado Tropical", é uma das composições do Chico e do Ruy Guerra, que terão explanações nos próximos capítulos. Caso se interessem, não percam!


Fado Tropical


Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

"Queimai vossa história tão mal contada!" - parte II


Agora com uma gama maior de leitores, deixo de invocá-los pelos nomes, mas com não menos carinho.


Nem sei se causou estranheza o sumiço, nem mesmo se foi notado, mas cumpre-me esclarecer que se deveu às provas e à alta dose etílica dos últimos dias... Não só de pão vive a mulher!


Mais uma crônica que eu adorei. Ela leva o título de um livro dele (que ainda não li), mas já ouvi dizer ser muito bom.


E tome mais João Ubaldo!



Viva o povo brasileiro


Para certos escritores, como infelizmente eu mesmo, assunto às vezes é uma praga invencível. Eu não queria falar novamente no que vou falar, pelo menos agora. E pretendia escapar ao efeito colateral, que é o de pegar mais uma vez no pé do presidente da República. Não vou negar que me tenho visto na obrigação de pegar no pé dele e, quando acho que devo, pego mesmo. Certamente ele não gosta, mas é o presidente, deve explicações aos governados e eu sou um governado na mesma situação geral que milhões de outros. Ele pode nem escutar nem ler, mas a gente tem que falar e escrever o que pensa do que ele faz. Presidente sendo, tudo o que ele faz é do interesse público.

O que ele disse recentemente na África é natural para a maior parte dos brasileiros, porque foram “verdades” estabelecidas sem discussão há décadas e agora influenciadas pela globalização e pela nossa permanente colonização cultural. O que vou argumentar é contra essas “verdades” — como os índios serem os primeiros brasileiros e a África ser um continente homogêneo, possuidor até mesmo de uma única cultura, a famosa “cultura africana” — sobre as quais escrevi outro dia, mas admito que vai sobrar para ele, a começar pelo lugar escolhido, de onde pouquíssimos escravos vieram para o Brasil.

Expandindo um pouco o que já publiquei aqui, vamos lembrar que, mais ou menos do mesmo jeito que entre os índios brasileiros antes do descobrimento, não havia, na África, noção de África comparável nem de longe à de hoje e muito menos de “negritude”. Milhões de negros, antes do contato com brancos, nasceram e morreram achando que a Humanidade era toda constituída de negros como eles, pois eles só conheciam negros. E a Humanidade, branca ou negra, não é uma espécie lá muito meritória. Os negros, como os brancos, amarelos ou o que lá fosse, praticavam a escravidão entre si, porque eram muitos povos, todos diferentes e, naturalmente, se vendo como diferentes. Faziam a mesma coisa, praticamente desde que o mundo é mundo. Guerreavam e quem ganhava costumava escravizar quem perdia. Isso já acontecia na África anterior à chegada européia e não podia ser diferente, pois a escravidão é uma iniqüidade antiga e tão sedimentada que até hoje não acabou.

Aquela casa de comércio de escravos onde o presidente pediu desculpas era, digamos, tripulada por negros. Eram negros comerciantes de outros negros, aos quais não se consideravam iguais de forma alguma, mas antagônicos e inimigos ferozes. Segundo me ensinou o mais erudito estudioso do assunto que conheço, o poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva, um povo denominado jalofo, naquela região, costumava vencer e escravizar os povos tacrus, fulas ou sereres, seus vizinhos, negros como eles, é óbvio. Esse tipo de coisa acontecia em todo o mercado mundial de escravos negros. Nos séculos XV e XVI, se não me engano, o reino do Congo, onde mais ou menos fica hoje Angola, subjugava seus vizinhos, escravizava-os e os vendia aos portugueses, que usaram durante algum tempo o nome calhorda de peças-da-índia para designar lotes de escravos. Ou seja, os portugueses não compravam homens livres, compravam peças-da-índia, “mercadoria pronta”, gente já escravizada, que, se não fosse exportada, continuaria na condição de escrava em sua própria terra.

Tudo isso é de uma monstruosidade sem medida, mas como hediondo crime de ser humano contra ser humano, não de raça contra raça. A escravidão é uma vergonha e uma indescritível violência, mas somos, como também diz o Alberto, todos descendentes de escravos, de senhores ou de ambos, pois houve (e ainda há) escravidão em todos os continentes. O presidente, que, por sinal, falou como branco, pediu desculpas, referindo-se a homens livres que de repente eram arrancados de sua terra para serem escravizados, mas não se tratava mais de homens livres, já eram de fato escravos. E também deixou de lado o que muita gente deixa, ao pensar no assunto: as nações ou etnias negras que vendiam escravos também devem desculpas aos descendentes destes. Se nós devemos ter remorso e vergonha da escravidão, também eles devem ter remorso de haverem sido cúmplices e participantes ativos da escravidão, humilhação e infindável sofrimento de seus semelhantes. Semelhantes homens, friso eu, não semelhantes negros. É abominação suprema escravizar qualquer pessoa. Aquilo que trouxe lágrimas aos olhos da senadora Benedita devia trazer ainda mais, se ela lembrasse que quem amontoava gente ali como gado não eram brancos, mas negros, que, aliás, não viam nenhum mal no que faziam.

Acho importante recordar isso porque estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também verdadeiros primeiros brasileiros e que trouxeram com eles tão importante parte da riqueza cultural, que hoje nos ornamenta e singulariza. Nós conseguimos ser e agora vivemos fazendo força para deixar de ser, num gigantesco passo atrás, o único país onde de fato a Humanidade se misturou e se mistura, onde ninguém permanece “de fora” e até culturas resistentes à integração, como a japonesa, se deixaram assimilar e os oriundos de qualquer parte não vivem aqui enquistados, como no resto do mundo. A verdadeira fraternidade não pode restringir-se àquela entre negros e negros ou brancos e brancos, ou quaisquer outras categorias limitadas. A verdadeira fraternidade há de medrar entre todos os homens e a nossa nação não é branca, nem negra, nem índia, é brasileira. Sei que há quem não goste, mas brasileiros somos, brasileiros sempre seremos e brasileiros morreremos, na nossa esplendorosa mestiçagem que, para mim, aos olhos de Deus, é o mais belo testemunho do grande milagre da Criação, que não foi raça nenhuma, foi o homem e sua consciência.

24/04/2005