terça-feira, 29 de março de 2011
Vício da vida
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Mais um da LeCool
Já que a primavera chega em Lisboa, confesso uma pontinha de saudades. E celebrando, mais um texto da LeCool:
Molha os pés, bate as palmas, assobia, lambe os dedos, faz o mapa estelar dos teus sinais, dá piparotes no nariz, ressona, come terra, boceja como as leoas, toma banho de luz apagada, rói as unhas até doer, faz caretas mesmo feias, anda às cavalitas, gargareja, ri-te alto, anda a olhar para o céu, faz uma cicatriz nova, gira até ficares tonto, cai no chão, coça a cabeça, dá a mão, pica o pé, gritaaaaaa, faz cocegas, espirra bem, dá cambalhotas, morde orelhas, morde a bochecha, salta mais alto, fecha os olhos, beija o teu ombro, prova o acido e depois o salgado, faz tudo só com a mão esquerda, queima-te no fogo, queima-te no gelo, beija com bâton, chora de beleza, chora de tristeza, pára de chorar, agora acorda, respira fundo, mais fundo ainda, ainda mais, pés no chão, cabeça do ar e estás pronto para começar…
Experimenta-te a ti todos os dias. E depois? Experimenta os outros! dizem René, Miguel & Mami.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Lecool de Lx
Segundo os passos da Iza, um ótimo da Lecool!
Exultemos, o melhor presente de Natal está aí. É um ano novo feito à nossa medida (não há que trocar), em branco neve como as agendas.
É tempo, pois, de parar de cansar o cérebro tentando reconstruir as noitadas de celebração para saber onde arranjamos tanta nódoa negra, e abraçar essa mania ilusória (mas linda como o arco-íris e patrocinada pela cosmética) chamada Resolução!
E se aprender (finalmente) a fazer patchwork não vos faz andar para a frente, nada como encher o espelho embaciado de objectivos fantásticos que vos darão uma existência de anuncio de cerveja e um corpo de quem nunca tocou numa.
E não vos preocupeis com a efemeridade de tais propósitos, desde que de quando em vez vos lembreis de fazer programas estranhos sugeridos pela Le Cool, visitar os avós, dar beijos na boca, comer mais sopa e rir bastante (e de preferência tudo isto ao mesmo tempo).
Um ano para gastarmos à vontade, brindam oRené, o Miguel & a Mami.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Amor de Perdição
natal sem excessos foi propício para terminar meu primeiro livro do português Castelo Branco. ("Já agora" conto que ia escrevendo tuga em vez de português, mas achei por bem não adjetivá-lo desta forma.)
O livro que sucedeu é Gomorra, do italiano Roberto Saviano, e prometo tentar achar um bom trecho para lhes trazer, mesmo sendo da opinião de que todo o livro deve ser lido.
Espero que gostem do trecho da vez.
Com meus melhores cumprimentos,
Ana Lusa
Capítulo XIX
A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coias; mas, na novela custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.
Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatrozes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.
A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!?
A verdade do coração humano! Se o coração humano tem enfilamentos de ferro que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?
Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é, feia e repugnante.
A desgraça afervora ou aquebranta o amor?
Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Fatos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos e não explica as funções óticas do aparelho visual.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Pela diferença
Como motivo para redenção, musico-vos.
O Quereres
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
terça-feira, 25 de agosto de 2009
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Mais história de escravidão
Fiel ao fim do blog, trago pra vocês trechos excertos do livro O julgamento de Sócrates, do norte americano I.F. Stone.
Infiel às normas da ABNT, informo que o primeiro trecho encontra-se nas páginas 67-68 e o segundo, nas páginas 200-201, e a editora é a Companhia das Letras.
1º
Outro sofista, Alcídamas, discípulo de Górgias, parece ter sido o primeiro filósofo a questionar a instituição da escravatura. Temos conhecimento desse fato graças a uma nota marginal feita por um comentarista anónimo da Antiguidade com referência a uma curiosa lacuna no manuscrito da Retórica de Aristóteles. Ao discutir a ideia de uma lei natural universal, Aristóteles afirma: “Alcídamas também menciona esse preceito em sua obra Messeníaco […]”. O resto dessa frase intrigante foi riscada dos manuscritos, dando quase a impressão de que o escriba temia que essa ideia perigosa e incendiária pudesse provocar uma rebelião de escravos, E é possível que tenha sido isso mesmo. Não temos como saber exatamente o que Aristóteles citou, porém uma nota marginal anônima que aparece nesse trecho (e que foi traduzida, numa nota de rodapé, na edição Loeb, por J. H. Freese) atribuiu a Alcídamas o trecho: “Deus deixou livres todos os homens; a Natureza não fez ninguém escravo”. Não sei se essa citação foi alguma vez utilizada pela literatura do movimento abolicionista norte-americano. (A julgar pelo nome, Messeníaco, a obra perdida de Alcídamas talvez dissesse respeito à revolta dos messênios contra os espartanos, que os haviam escravizado.)
Antes que nos empolguemos demais com esses nobres sentimentos, devo acrescentar uma melancólica nota final em relação a esse ponto. Uma das constatações mais desanimadoras do estudioso da Antiguidade é o fato de que os estóicos, são Paulo e os juristas romanos afirmavam todos a igualdade dos homens – fossem estes livres ou escravos – e ao mesmo tempo aceitavam sem nenhum problema a instituição da escravatura. O mesmo se deu com a maioria dos fundadores da nação norte-americana – se bem que não com todos.
Mas o sofista Alcídamas ao menos transcendeu os preconceitos de sua época (tal como Eurípedes, conforme veremos) e abriu os olhos dos homens para uma moralidade mais elevada, Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles aceitavam a visão convencional de sua época a respeito da escravidão e, sob esse aspecto, sua atitude emocional e intelectual era inferior à de um sofista como Alcídamas.
Sócrates e Platão jamais questionaram a escravidão, e Aristóteles a julgava “natural”, Todos os três, porém, viviam numa sociedade em que havia escravos que tinham perdido a liberdade por causa dos azares da guerra ou da pirataria. Era a falta de sorte, e não a inferioridade natural, que os levara aos mercados de escravos da Antiguidade. Até mesmo os que nasciam escravos, como ocorria em Roma, como frequência elevavam-se muito acima da sua condição de origem. Homero era mais sábio do que os filósofos. Afirmou ele que quando um homem é capturado no campo de batalha e escravizado, ele se transforma em “um homem pela metade”. Tendo perdido a liberdade, não se importa com mais nada; doravante tudo que se produzir pertencerá a outro. Não fora sua natureza que o fizera escravo, mas sim a escravização que modifica sua “natureza”. Moral da história. Até mesmo os maiores filósofos às vezes compartilham da cegueira de sua época, sempre que uma visão mais arguta possa ameaçar o direito de propriedade.
2º
Como antídoto a essa história de fadas política, voltemos às sóbrias páginas da Constituição de Atenas, de Aristóteles. Nelas ficamos sabendo o motivo das “sedições” – para usar o termo pejorativo de Crítias – que Sólon encontrou ao voltar do Egito para Atenas. Os pobres da Ática tinham praticamente se transformado em escravos dos ricos através de um sistema no qual a legislação dava aos credores o direito de impor a servidão aos devedores incapazes de saldar suas dívidas, bem como a suas famílias. Segundo Aristóteles, Sólon, para restaurar a estabilidade social e estabelecer um mínimo de justiça, extinguiu esse sistema de servidão. Se Sólon tivesse gostado do que vira no Egito, esse sistema seria um meio oportuno de instituir na Ática a escravidão por dívidas que havia entre os egípcios. Crítias morreu na tentativa de pôr em prática o ideal platónico.