terça-feira, 25 de agosto de 2009

O que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mais história de escravidão

Caríssimos,

Fiel ao fim do blog, trago pra vocês trechos excertos do livro O julgamento de Sócrates, do norte americano I.F. Stone.

Infiel às normas da ABNT, informo que o primeiro trecho encontra-se nas páginas 67-68 e o segundo, nas páginas 200-201, e a editora é a Companhia das Letras.


Outro sofista, Alcídamas, discípulo de Górgias, parece ter sido o primeiro filósofo a questionar a instituição da escravatura. Temos conhecimento desse fato graças a uma nota marginal feita por um comentarista anónimo da Antiguidade com referência a uma curiosa lacuna no manuscrito da Retórica de Aristóteles. Ao discutir a ideia de uma lei natural universal, Aristóteles afirma: “Alcídamas também menciona esse preceito em sua obra Messeníaco […]”. O resto dessa frase intrigante foi riscada dos manuscritos, dando quase a impressão de que o escriba temia que essa ideia perigosa e incendiária pudesse provocar uma rebelião de escravos, E é possível que tenha sido isso mesmo. Não temos como saber exatamente o que Aristóteles citou, porém uma nota marginal anônima que aparece nesse trecho (e que foi traduzida, numa nota de rodapé, na edição Loeb, por J. H. Freese) atribuiu a Alcídamas o trecho: “Deus deixou livres todos os homens; a Natureza não fez ninguém escravo”. Não sei se essa citação foi alguma vez utilizada pela literatura do movimento abolicionista norte-americano. (A julgar pelo nome, Messeníaco, a obra perdida de Alcídamas talvez dissesse respeito à revolta dos messênios contra os espartanos, que os haviam escravizado.)
Antes que nos empolguemos demais com esses nobres sentimentos, devo acrescentar uma melancólica nota final em relação a esse ponto. Uma das constatações mais desanimadoras do estudioso da Antiguidade é o fato de que os estóicos, são Paulo e os juristas romanos afirmavam todos a igualdade dos homens – fossem estes livres ou escravos – e ao mesmo tempo aceitavam sem nenhum problema a instituição da escravatura. O mesmo se deu com a maioria dos fundadores da nação norte-americana – se bem que não com todos.
Mas o sofista Alcídamas ao menos transcendeu os preconceitos de sua época (tal como Eurípedes, conforme veremos) e abriu os olhos dos homens para uma moralidade mais elevada, Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles aceitavam a visão convencional de sua época a respeito da escravidão e, sob esse aspecto, sua atitude emocional e intelectual era inferior à de um sofista como Alcídamas.
Sócrates e Platão jamais questionaram a escravidão, e Aristóteles a julgava “natural”, Todos os três, porém, viviam numa sociedade em que havia escravos que tinham perdido a liberdade por causa dos azares da guerra ou da pirataria. Era a falta de sorte, e não a inferioridade natural, que os levara aos mercados de escravos da Antiguidade. Até mesmo os que nasciam escravos, como ocorria em Roma, como frequência elevavam-se muito acima da sua condição de origem. Homero era mais sábio do que os filósofos. Afirmou ele que quando um homem é capturado no campo de batalha e escravizado, ele se transforma em “um homem pela metade”. Tendo perdido a liberdade, não se importa com mais nada; doravante tudo que se produzir pertencerá a outro. Não fora sua natureza que o fizera escravo, mas sim a escravização que modifica sua “natureza”. Moral da história. Até mesmo os maiores filósofos às vezes compartilham da cegueira de sua época, sempre que uma visão mais arguta possa ameaçar o direito de propriedade.


Como antídoto a essa história de fadas política, voltemos às sóbrias páginas da Constituição de Atenas, de Aristóteles. Nelas ficamos sabendo o motivo das “sedições” – para usar o termo pejorativo de Crítias – que Sólon encontrou ao voltar do Egito para Atenas. Os pobres da Ática tinham praticamente se transformado em escravos dos ricos através de um sistema no qual a legislação dava aos credores o direito de impor a servidão aos devedores incapazes de saldar suas dívidas, bem como a suas famílias. Segundo Aristóteles, Sólon, para restaurar a estabilidade social e estabelecer um mínimo de justiça, extinguiu esse sistema de servidão. Se Sólon tivesse gostado do que vira no Egito, esse sistema seria um meio oportuno de instituir na Ática a escravidão por
dívidas que havia entre os egípcios. Crítias morreu na tentativa de pôr em prática o ideal platónico.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Baudelaire


Da parede da cozinha do São Sebastião, nas letras sôfregas do Zé Chemin, pra vocês:

EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.


Baudelaire