Caros,
natal sem excessos foi propício para terminar meu primeiro livro do português Castelo Branco. ("Já agora" conto que ia escrevendo tuga em vez de português, mas achei por bem não adjetivá-lo desta forma.)
O livro que sucedeu é Gomorra, do italiano Roberto Saviano, e prometo tentar achar um bom trecho para lhes trazer, mesmo sendo da opinião de que todo o livro deve ser lido.
Espero que gostem do trecho da vez.
Com meus melhores cumprimentos,
Ana Lusa
Capítulo XIX
A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coias; mas, na novela custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.
Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatrozes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.
A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!?
A verdade do coração humano! Se o coração humano tem enfilamentos de ferro que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?
Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é, feia e repugnante.
A desgraça afervora ou aquebranta o amor?
Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Fatos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos e não explica as funções óticas do aparelho visual.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
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